Facçoes avançam em sistemas educacionais


O poder das facções criminosas, estabelecido nos Complexos Penitenciários da Região Metropolitana de Fortaleza, ganha cada vez mais força. Agora são os Centros Educacionais, que recebem adolescentes infratores, que veem o avanço das organizações. No Centro Educacional Cardeal Aloísio Lorscheider (Cecal), os internos exigiram que fossem separados nos blocos de acordo com as facções, para que confrontos fossem evitados.




Segundo o juiz titular da 5ª Vara da Infância e Juventude, Manuel Clístenes de Façanha e Gonçalves, os boatos sobre a presença de facções nas unidades surgiram há cerca de três anos. “Na 5ª Vara começamos a receber adolescentes envolvidos em casos típicos de facções, como incêndios de ônibus, tentativas de regastes em presídios, fugas em massa, ataques a prédios públicos. Começamos a ver adolescentes acusados de série de homicídios, por questões ligadas ao tráfico. Temos um interno que confessou à equipe do Centro Educacional ter cometido 17 mortes a mando de uma facção”, afirmou Gonçalves.




Segundo o juiz, em março deste ano, um episódio demonstrou a gravidade da situação. A partir de então, a segregação que já estava acontecendo no Cecal foi sacramentada. “Em março eu fiz uma visita ao Cecal. Enquanto estava lá, eles iniciaram uma rebelião. Jogaram pedras, garrafas, copos com café. Alguns adolescentes disseram a mim que iriam fazer uma rebelião e matariam um socioeducador. Eu nunca tinha visto aquilo. Quando sai do bloco, o pessoal do Cecal me informou que eles faziam parte de um facção”.

A promotora de Justiça Antônia Lima, da 7ª Promotoria da Infância e Juventude, conta que tomou conhecimento das facções nos Centros durante inspeções em março e abril. “Já existia, mas ninguém queria falar. Em agosto voltei ao Centro para fazer uma averiguação e colher as provas de um procedimento, considerando que um socioeducador foi refém no São Miguel. Eles se declararam de facções. Pelo discurso, percebemos que um deles tinha liderança”, disse.

Segundo Clístenes Gonçalves, com as notícias do Cecal se espalhando pelas outras unidades, os internos da maioria dos Centros estão pedindo para serem separados. “Só tem dois Centros que eu não tenho conhecimento de pedidos deste tipo. Somente o Cecal está completamente separado, mas temos notícias não oficiais, que no Centro Educacional Patativa do Assaré, os indivíduos mais perigosos estão sendo isolados. Há uma influência dentro dos Centros do que acontece nos presídios e nas ruas. O Sistema Socioeducativo caminha para mais uma crise, só que desta vez bem pior, bem mais grave”, afirmou.

Acirramento
Conforme o juiz, eventos que demonstram o acirramento entre as facções têm se repetido. “Há ameaças recíprocas entre os internos que fazem parte das facções em guerra. Houve, inclusive, algumas tentativas de homicídio. Em uma delas, nós apuramos que foi uma ordem de uma facção. Na semana passada, seis adolescentes supostamente aliados ao Comando Vermelho foram ouvidos na 5ª Vara e contaram que, na última rebelião do Cecal, tentaram invadir a ala dos membros da Guardiões do Estado (GDE) para matá-los”, revelou o magistrado.

Para a promotora Antônia Lima, ainda há tempo para que a situação seja resolvida. “Acho que dá tempo reagir. Isso começou a borbulhar agora. Nós temos que oferecer uma proposta mais interessante para o adolescente do que a facção. É importante ter prática restaurativa. É preciso que ele se preocupe com lazer, esporte, outras coisas para que não esteja preocupado com o que a facção faz lá fora”.

Clístenes Gonçalves classificou a situação como “muito difícil” e pontuou que as chances de ressocialização diminuem muito com a presença das fações nos Centros. “Como ressocializar um indivíduo que serve ao crime, que obedece a uma facção? Sinceramente, não vejo como”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *