Br020: Pedintes fazem revezamento em busca de doações de devotos

Canindé. De um lado, a necessidade, do outro, a caridade. Nesta época no ano, no ciclo natalino, que se estende até 6 de janeiro, Dia de Reis, quem segue de Fortaleza a Canindé, pela BR-020, se depara com centenas de pedintes em um trecho de 80Km nas duas margens da BR-020. Eles passam o dia estendendo as mãos na expectativa de receberem donativos dos devotos de São Francisco das Chagas, padroeiro de Canindé.


Pelos cálculos de patrulheiros da Polícia Rodoviária Federal (PRF), que fiscalizam o trecho de 100Km da BR-020, entre as cidades de Canindé e Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), são mais de 500 pedintes. O período de mendicância começa em setembro, com os festejos de São Francisco, em Canindé, e se acentua com a proximidade do Natal, quando muitos devotos retornam, pagando promessa ou simplesmente em visita, aproveitando a viagem para o ato de generosidade.


É o caso do autônomo Tavares de Lima, 39, conhecido como “Tatazim”. Ele mora no distrito de São João do Amanari, em Maranguape e, pelo sexto ano consecutivo, realizou o seu Natal Solidário. Acompanhado da esposa, Juliana; do cunhado, José Jorge; e do amigo, Emanuel, a caminho de Canindé, saiu distribuindo alimentos e roupas para os adultos. Havia também presentes para as crianças, mas não encontrou muitas pelo caminho.


Antonia Luzia Costa de Sousa, 11, foi uma das exceções. Quando viu os dois carros parando à margem da BR correu, com outros moradores da localidade de Campos Belos, em Caridade. Apesar da timidez, se aproximou, ganhou guloseimas e brinquedos, e, para a mãe, alimentos. Só não recebeu mais presentes das mãos da esposa de Tatazim, gestante de nove meses, porque os seus braços não são tão grandes quanto à generosidade deles, comentou.


Após receber a bênção de São Francisco, no retorno para casa, em Aquiraz, acompanhado do filho Renan e da nora Patrícia, o carpinteiro Geová Vieira Machado, 59, repetiu o ritual, iniciado há 27 anos. Baixou o vidro da caminhonete e entregou os presentes, na maioria alimentos. Esse ato iria se estender pela BR até entregarem todos os pacotes de quem, no olhar, percebe precisar. Foi a forma encontrada para retribuir a proteção do Santo.


Como a família de Ilane Martins de Sousa, 23, é numerosa, uma doação não é suficiente. Por isso, ela e a mãe, Francisca Lúcia Martins, 49, montaram uma tenda, no povoado de Caldeirão, já próximo a Canindé. Como os filhos e a neta, todos crianças, não têm com quem ficar, acompanham a jornada diária debaixo de sol escaldante. Como agora são proibidos de acompanharem os adultos na mendicância, quando a viatura da Polícia ou os conselheiros tutelares aparece, se escondem.


Crianças de fora


No sábado, representantes do Ministério Publico do Estado do Ceará (MPCE) em Caridade, acompanhados por servidores da Prefeitura e do Conselho Tutelar, realizaram campanha educativa no trecho da BR-020. Acompanhados dos patrulheiros rodoviários federais, tentaram abordar os grupos com crianças. Houve correria. Muitos ficaram assustados, explicou o inspetor da PRF Hélio Alves.


Segundo o policial rodoviário, a força tarefa que utiliza na campanha a mensagem “Doe com amor e responsabilidade” pretende evitar riscos e constrangimentos para as crianças, muitas vezes usadas por adultos para sensibilizar os doadores. Ao mesmo tempo orientar os adultos para o crime de exploração infantil, punível com reclusão de dois a quatro anos e multa.


Todavia, 24h após a ação, crianças, embora em menor número, eram vistas novamente às margens da BR. “Eles aprendem com a gente que pedir não faz vergonha quando realmente se precisa. Se a gente não tem o que comer, prefiro que meu filho se torne um mendigo do que um ladrão”, desabafou uma pedinte que preferiu ficar no anonimato.


A promotora de Justiça Anny Gresielly Sampaio, titular da Comarca de Caridade, informou que duas crianças já morreram atropeladas. Desde 2014, o MPCE promove ações. No ano passado, foram promovidas audiências públicas, para se organizarem nos pontos de apoio aos romeiros, de forma digna e segura.


Enquete


Por que você pede esmolas?


“Só quem sabe da sua necessidade e tem humildade é capaz de estender a mão para pedir ajuda. O Natal existe para os pobres também e, se estou aqui, é porque tenho certeza de que existe gente generosa”


Antônia Maria Ferreira Barros

Agricultora


“Não é nada agradável para um homem sadio estender a mão na esperança de uma esmola, mas para quem está desempregado e tem família para sustentar, é melhor pedir do que roubar. Não é nenhum crime”


Raimundo Nonato Ferreira de Sousa

Agricultor

Fonte: Diário do Nordeste

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